Segurança · matéria IAlfabeto
Extensões do Chrome com mais de 13 milhões de instalações desviavam buscas de usuários
Mais de 300 complementos prometiam ler PDFs ou oferecer inteligência artificial, mas alteravam secretamente o navegador para faturar com anúncios.

Pesquisadores de segurança identificaram uma rede de 319 extensões para o navegador Google Chrome que alteravam silenciosamente as pesquisas de mais de 13,4 milhões de usuários. Os complementos fingiam oferecer serviços práticos, como conversores de arquivos no formato digital (PDF), manuais de instruções e ferramentas de busca baseadas em inteligência artificial. O objetivo real por trás da manobra era desviar as consultas das pessoas para gerar ganhos financeiros com comissões de anúncios em plataformas parceiras, como Bing e Yahoo.
A descoberta foi apresentada pelo pesquisador John Tuckner, da empresa de segurança Socket, ampliando um levantamento que começou com 57 complementos suspeitos e alcançou novas centenas de programas. Na prática, a situação funciona como um taxista que, contratado para levar você a uma determinada loja, decide fazer desvios sem avisar apenas para receber comissões de outros comércios no caminho. Em vez de entregar a resposta de forma direta, o sistema conduzia a navegação por computadores intermediários controlados pelos operadores do esquema.
Como os complementos operavam no navegador
O esquema tirava proveito de um recurso oficial do próprio Chrome que autoriza extensões a substituir o mecanismo de pesquisa padrão (search provider). Por usar uma função já existente no sistema, os criadores dessas ferramentas não precisavam escrever códigos avançados nem pedir permissões complexas aos usuários. Em certos casos analisados pela equipe de segurança, o pacote continha somente as imagens dos ícones e o arquivo básico de configuração do aplicativo, sem nenhum script em segundo plano.
A distribuição também contava com uma estratégia discreta. Os complementos ficavam hospedados no portal oficial de extensões da Google, mas em uma categoria oculta, o que impedia que eles fossem encontrados pela busca comum da loja. A atração de novas pessoas acontecia por meio de anúncios duvidosos publicados em diversos sites, que convenciam o internauta a clicar e instalar a ferramenta com promessas de resolver tarefas rápidas do dia a dia.
Riscos que vão além de anúncios indesejados
Apesar de a rede faturar principalmente com o desvio de tráfego para publicidade, os especialistas alertam que a ameaça pode se tornar muito mais grave. Como o tráfego passa obrigatoriamente por um servidor intermediário (proxy server) sob comando dos operadores, eles conseguem alterar o destino final de forma remota, sem precisar atualizar a extensão instalada no computador. Isso abre espaço para que as pesquisas comecem a direcionar para sites falsos criados para roubar dados pessoais ou descarregar arquivos maliciosos.
Nos testes realizados com um complemento chamado Predator Search, seis buscas com exatamente as mesmas palavras levaram a quatro endereços finais diferentes na internet. Entre os grupos identificados, havia ondas inteiras voltadas a temas específicos, como um conjunto com mais de 50 extensões que ironicamente usavam nomes associados a escudos de segurança digital para conquistar a confiança do público.
Remoção e medidas de proteção
Segundo o relatório da Socket, a maioria dos complementos apontados na investigação foi retirada do portal oficial da Google antes da publicação dos dados, embora novas tentativas continuem surgindo. O navegador se tornou a principal bancada de trabalho de empresas e profissionais autônomos, o que faz de qualquer modificação indevida um risco direto para a segurança das operações. Os especialistas orientam que as pessoas desinstalem complementos desconhecidos, realizem verificações no sistema e limitem a adição de ferramentas ao que for estritamente necessário.
Entenda
Por que isso importa
O navegador da internet é o ambiente onde pequenos empresários e profissionais emitem notas, respondem clientes e realizam operações financeiras diárias. Ter um programa invisível desviando pesquisas compromete a privacidade dos dados corporativos e aumenta o risco de invasões por meio de páginas falsas. Mesmo ferramentas presentes em lojas oficiais podem esconder armadilhas quando são desenvolvidas sem transparência. Compreender como esses golpes funcionam evita prejuízos operacionais e mantém a rotina de trabalho digital protegida.
na sua empresa
- Em um escritório de contabilidade, um colaborador instala um leitor de documentos gratuito para visualizar comprovantes e passa a ter as buscas corporativas monitoradas por intermediários desconhecidos.
- Na recepção de uma oficina, o atendente adiciona uma extensão para buscar manuais técnicos e acaba sendo redirecionado para telas cheias de anúncios que atrasam o atendimento aos clientes.
- Em uma pequena loja virtual, o gestor baixa complementos que prometem recursos de inteligência artificial e corre o risco de ser levado a sites fraudulentos que tentam roubar senhas de acesso aos sistemas de venda.
termos explicados
- sequestro de busca (search hijacking)
- Prática em que um programa altera as preferências do navegador sem aviso para desviar os resultados de pesquisa para outros endereços.
- servidor intermediário (proxy server)
- Computador que recebe as informações do usuário e as repassa para a internet, podendo monitorar ou modificar os dados durante o caminho.
- programa potencialmente indesejado (potentially unwanted program)
- Software que não causa danos imediatos como um vírus destrutivo, mas realiza modificações incômodas, enganosas ou invasivas no computador.
- redirecionamento (redirection)
- Processo automático em que o navegador encaminha o usuário para uma página diferente daquela que ele tentou acessar originalmente.
o que fazer agora
- Abra o menu de extensões do navegador e desinstale qualquer complemento que não seja familiar ou que não tenha utilidade comprovada na sua rotina.
- Verifique as configurações do programa de navegação e confirme se o mecanismo de busca padrão é o provedor confiável de sua preferência.
- Execute uma varredura completa no computador com um sistema de proteção contra vírus para eliminar possíveis arquivos residuais.
- Evite clicar em banners ou propagandas na internet que ofereçam instalação rápida de ferramentas para abrir arquivos ou acelerar o computador.
Cuidados
Apesar de a maior parte das extensões citadas no estudo ter sido eliminada da loja oficial, os operadores costumam criar novas variações sob nomes diferentes com frequência. A Google ainda não havia emitido uma resposta formal sobre o caso até a divulgação da reportagem, o que reforça a necessidade de cautela contínua ao autorizar novos programas no navegador.
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